A oficina Exercício da Crítica Teatral é destinada a profissionais e estudantes das áreas de teatro, jornalismo, letras e artes, além de interessados no tema.
Os alunos deverão assistir aos espetáculos que integram a programação do Festival e se dedicarão à elaboração de textos críticos. A oficina é coordenada pelo jornalista e crítico Sérgio Maggio (Correio Braziliense) e contará com a participação de Carlos Gil Zamora (editor da revista Artez, de Bilbao, na Espanha), Kil Abreu (jornalista, pesquisador e crítico teatral) e Valmir Santos (jornalista e crítico teatral da Folha de São Paulo).
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Espetáculo // Cordas e contos - Imagens injustificadas
Por Nair Rabelo
Eliana Carneiro, autora, diretora e atriz do espetáculo Cordas e contos destaca-se pela proposta de fugir do que é tido como tradicional no teatro infantil. Em uma hora de apresentação - que contabiliza a participação dos dois filhos, música ao vivo, e integrantes do projeto social Tanoa (Tambores do Paranoá) - pais e crianças assistem à seqüência de contos, que procura remeter a itens da cultura brasileira. Mas a opção da diretora em seguir o que parece ser a coqueluche do dito teatro contemporâneo (o uso de projeções de imagens durante parte do espetáculo) provoca quebra na unidade narrativa. A tal ponto de se tornar uma ferramenta injustificada. A música ao vivo garante a retomada da cadência do espetáculo.
Espetáculo // Muito barulho por quase nada - Simples e sofisticado
Por Sheila Campos
Muito barulho por quase nada, montagem do grupo nordestino Clowns de Shakespeare (RN), é um destes casos em que uma realização faz cair por terra série de suposições equivocadas – como, por exemplo, a de que grupos de teatro de pesquisa não encontrem “pontos de contato” com platéia ávida por entretenimento. Ou ainda de que textos dramáticos, muito difundidos e encenados, foram “esgotados”, sem quase nenhuma possibilidade de inovação a oferecer ao artista, de tão saturado que chegam ao século XXI.
A resposta da trupe (até então desconhecida em Brasília) a essas inquietações é competentíssima: com simplicidade, leveza e atualização de uma tradição do riso, que os palcos acalentam desde a mais tenra infância do teatro.
Muito barulho por quase nada atende às demandas de um espetáculo concebido para o palco, mas que também funciona na rua. Três módulos independentes, com rodízios e tapadeiras, fazem às vezes de cenário e se alternam entre banco de praça, altar, parede e afins. Os atores brincam diretamente com o público exatamente como fazem entre os colegas saltimbancos. Tocam instrumentos, envergam figurinos chamativos. Reúnem o melhor do humor popular e do clownesco, mesclados com canções tradicionais nordestinas em muitos números musicais; corigamento de atores, pantomimas e danças, numa profusão de cores, ritmos, movimentos e alegria, em um teatro popular e atual – despretensioso mas, nem por isso, sem sofisticação.
Espetáculo // Diário do maldito - Plínio envolvente
Por Bruno Henrique Peres
Metáforas cuidadosamente construídas e total interação com o público são os pontos fortes do Diário do maldito, um dos destaques da mostra Cena Brasília. A peça, que é resultado de pesquisa do grupo Teatro do Concreto, narra a vida de Plínio Marcos a partir de elementos de sua própria obra. Oscilando entre cenas de comédia e drama, a narrativa conduz o espectador – não sem exigir muita atenção – ao momento em que o poeta decide parar de escrever. Os personagens e as causas que sempre defendeu o abordam de modo a impedir o fim de seu processo criativo. O envolvimento visível dos atores com a obra e a ambientação do Teatro Oficina do Perdiz acrescentam o tom de realismo ao espetáculo não sendo difícil comover-se e sentir-se envolvido com a trama.
Espetáculo // Páginas amarelas - Atletas Irregulares
Por Marco Túlio Alencar
A incomunicabilidade humana e, a partir daí, as frustrações, as dúvidas e os desejos não realizados dão a tônica deste exercício teatral, encenado pela Companhia B de Teatro. O texto tem bons momentos e os principais objetos de cena – cubos que se movem e são manipulados durantes toda a encenação – são bem aproveitados e estão de acordo com a idéia principal, adaptada da revista de quadrinhos portuguesa A pior banda do mundo.
A direção de Kênia Dias exigiu do elenco desempenho de atletas e todos pareciam preparados, pois, apesar da movimentação intensa (inclusive com a utilização de instrumentos musicais), não se mostraram ofegantes ou cansados.
Os atores e atrizes têm performances irregulares – fato perceptível ao longo de toda a peça e principalmente nas partes em que contracenam em grupo: ora é a voz de um que se sobressai, ora é um gestual mais marcante. Enquanto o espetáculo pede certa unidade de atuações, complementadas pelo figurino e maquiagem semelhantes para todos os personagens.
Na apresentação da sexta-feira (dia 31 de agosto), houve algumas falhas na parte técnica: problemas no tempo de entrada e/ou na saída da trilha sonora, a iluminação vacilante e até mesmo uma lanterna (elemento que compõe um dos momentos importantes da encenação, de onde provem a luz) teimou em não acender.
Espetáculo // A Pedra do Reino - Na galeria de grandes obras
Por Marco Túlio Alencar
O diretor Antunes Filho e o Grupo de Teatro Macunaíma (CPT /SP) conseguiram o que parecia impossível: transpor para o palco as mais de 700 páginas do Romance d’a Pedra do Reino e de sua “continuação” História d’O Rei Degolado nas caatingas do sertão: ao sol da Onça Caetana, ambos do mestre Ariano Suassuna.
Em menos de duas horas, A Pedra do Reino apresenta ao público, de forma admirável, a história que levou mais de uma década para ser escrita. A linha central da trajetória do pícaro Quaderna (na surpreendente interpretação de Lee Thalor) é entremeada de imagens lúdicas e fortes.
São mais de 20 intérpretes que se revezam no palco, em sucessivas entradas, para ilustrar as passagens pinçadas com o objetivo de reconstruir o romance epopéico. As atuações de todo o elenco são elogiáveis. Alguns personagens dialogam com Quaderna. Na maior parte do tempo, os atores revezam-se para compor o pano de fundo da história, numa troca frenética de roupas e adereços.
No palco nu, desfilam integrantes de cavalhadas, animais, crianças, repentistas, soldados, banda de música. Há uma profusão de cores nos adereços e figurinos que complementam a narrativa, que conta a trajetória de brasileiro, cujo objetivo é se tornar “gênio da raça” e escrever um romance, aproveitando-se de escrivã que toma nota do depoimento à justiça.
Alguns elementos de cena são simples, mas bem aproveitados: cadeiras viram cavalos e também se transmutam em pedras de um rio. Escadas, dessas bem simples de uso doméstico, representam as duas torres que simbolizam o império de Quaderna, marcado pela tragédia. Ao mesclar objetos inusitados com outros marcadamente representativos da cultura nordestina, o espetáculo ganha em criatividade.
Da mesma forma que os livros de Suassuna, a montagem do Grupo Macunaíma deve entrar para a galeria das grandes obras, pois, além do vigor, o espetáculo contém os elementos que identificam o povo brasileiro e sua cultura.
Espetáculo // A Pedra do Reino - Antunes reduz Suassuna
Por James Fensterseifer
Antunes Filho e o grupo Macunaíma (CPT /SP) em A Pedra do Reino tomaram para si a difícil (ou impossível) tarefa de fazer uma teatralização à altura das obras de Ariano Suassuna: Romance d’a Pedra do Reino e História d’O Rei Degolado nas caatingas do sertão: ao sol da Onça Caetana. A adaptação, que intercala o narrativo com o dramático, é grandiosa e conduz o espectador pelo universo das lembranças de Quaderna, narrador, protagonista vivido de forma correta pelo ator Lee Thalor.
A imponência da obra romancesca de Suassuna exigiu de Antunes, autor da dramaturgia, poder de síntese desmedido para condensá-la em espetáculo teatral. A solução encontrada foi a de manter na boca do narrador a maior parte da história, sobrecarregando-o, o que, muitas vezes, tornou linear e cansativa a encenação.
A participação harmônica dos atores que, numa interpretação coesa, conseguem se multiplicar em cena para representar as memórias de Quaderna, garante que todo o universo mágico e tragicômico dos personagens de Suassuna esteja presente no espetáculo.Os figurinos, fiéis à estética nordestina, e os adereços inventivos, cadeiras que ora servem de cavalos, ora fazem às vezes de um rio, conduzem o espectador a um delírio, merecem ser salientados.
Espetáculo // A Pedra do Reino - Teatro próximo da literatura
Por Leonardo Hernandez
O Romance d’a Pedra do Reino é uma grande obra em diversos sentidos. São dois livros que somam mais de 700 páginas de obra – ainda – inacabada. O último volume parece que já está escrito, mas Ariano Suassuna tem medo de publicá-lo. Disse-me ele que tem medo de morrer ao ver toda sua epopéia registrada no papel. Ariano segue a linha neologística sertaneja de Guimarães Rosa e a grandiosidade factual de Euclides da Cunha o que já torna complexo lê-lo, ouvi-lo exige muito mais esforço.
O diretor Antunes Filho conseguiu colocar no palco o fio da história de Quaderna, o Decifrador. A excelente atuação de Lee Thalor como Quaderna e a criativa encenação foram fundamentais para manter o público ligado à história. A competência da direção brilha pela montagem enxuta e bem acabada, tanto do elenco como dos demais elementos da cena.
Muito embora as palavras de um linguajar sui generis, numa dicção cantada do sotaque pernambucano, podem ter desestimulado parte da platéia a acompanhar a intricada trama da guerra da Pedra do Reino. A versão teatral do romance ficou mais próxima da história, mas deixou muitos elementos de fora. Entre a peça de Antunes e a recente microssérie de Luiz Fernando Carvalho, fico com o livro.
Espetáculo // Diário do maldito - Mazelas contundentes
Por Leonardo Hernandez
O mergulho de dois anos do grupo Teatro do Concreto na obra e vida do escritor Plínio Marcos resultou em contundente espetáculo. A peça coloca o autor no centro do drama, usando a sua biografia, obra teatral e as experiências pessoais dos integrantes para construir a dramaturgia elaborada por Juliana Sá. O texto mantém a tensão dramática em alta durante todo o espetáculo carecendo somente de mais preparação e cuidado nas transições entre as situações e cenas.
A trilha sonora, executada ao vivo, poderia ser mais bem explorada e os cinco músicos estão deslocados do contexto do espetáculo. Diário do maldito coloca o público dentro do universo de Plínio num contato direto com suas personagens: putas, mendigos, vagabundos, bêbados e policiais violentos.
A tragédia humana desses seres marginais está presente em cenas fortes numa atuação vigorosa e desprendida do elenco, que possui boas interpretações, mas é bastante irregular. O desafio de transitar do palavrão para a poesia não é alcançado por todos, apesar do esforço. Essa irregularidade, no entanto, não compromete o espetáculo, que se sustenta pela ótima encenação de Francis Wilker, aproveitando o Teatro Oficina do Perdiz e pela emoção e sensibilidade com que o Teatro do Concreto trata as mazelas da sociedade brasileira.
Espetáculo // Diário do maldito - Almas em tralhas
Por Malu Barsanelli
Um galpão próximo à W4 Norte parece não guardar nada mais do que sucatas e tralhas metálicas. Mas, ao entrar no Teatro Oficina do Perdiz (708/9 Norte), o espectador logo percebe que há muito mais por trás dos compensados de madeira. Mira, a personagem interpretada pela atriz Micheli Santini, já a postos, guia o público para dentro do teatro. E, na conversa à toa, deixa transparecer as verdadeiras tralhas – aquelas de sua alma.
Diário do maldito é resultado de uma pesquisa de dois anos do Teatro do Concreto sobre a vida e a obra do escritor e dramaturgo paulista Plínio Marcos. Num bar, pessoas pobres e desgostosas da vida, a exemplo de um poeta, que se dedica os versos à causa social. Hoje, no entanto, é mais um entre os afogados.
De forma irreverente, o grupo Teatro do Concreto fala da dor e da desesperança, acompanhados de um cenário intimista e atuação que interage com o espectador. Talvez a companhia peque por não deixar tão clara a ligação entre alguns personagens, o que confunde o público.
Espétaculo // Lá revelácion - Pregação de fé
Por Juliana Sá
Pura anarquia, o bufão ítalo-espanhol Leo Bassi não poupa ninguém em suas investidas humorísticas e políticas. Em La revelación, o discurso declaradamente contra as religiões monoteístas é, em grande parte, pautado na palavra, como o fazem os pastores e homens da religião. Ora em tom agressivo e apaixonado, ora tranqüilo, quase tocante. As narrativas fluem como se viessem naquele instante, improvisadas, cheias de imagens. Histórias que corrompem o tempo e os símbolos cristãos, que fazem rir e desarmam os espectadores a ponto de se permitirem ser literalmente atacados. O risco da brincadeira, ele anuncia desde o início: fiéis podem perder o reino dos céus por rir no espetáculo de Leo Bassi.
Espétaculo // Histórias de amor (últimos capítulos) - Teatro Cru
Por Juliana Sá
O Teatro da Vertigem assina crueldade e crueza em sua História de amor (últimos capítulos) , de Jean-Luc Lagarce. Sentimento mais próximo de Brecht e seu “efeito de distanciamento” que de Artaud e o teatro da crueldade, apesar de ser, este último, marcante influência nos trabalhos do grupo. Impossibilidade de se envolver com a História, vendo-se dentro dela, vendo o outro assistindo ali na frente, numa arena em pleno palco exposto em suas estruturas sobre a nua luz branca. Quando havia alguma dramaticidade no ar, com a luz ou a música criando um clima envolvente, o truque estava exposto, era a lanterna na mão de um ator ou o aparelho de som ao microfone, criando imagens e sensações paradoxais, dialéticas a um só tempo, envolvendo e não envolvendo. E um sutil intercâmbio entre personagem e ator/atriz, ação e narração, passado e presente.
Espetáculo // A Pedra do Reino - Tropeços no clássico
Por Malu Barsanelli
A obra-prima de Ariano Suassuna, Romance D’a Pedra do Reino, foi um dos poucos textos do autor paraibano que não foram escritos para o teatro. Adaptar para o teatro esse grosso livro, cheio de histórias e contextos históricos interligados, não é tarefa fácil. Incluir, ainda por cima, trechos de História d’O Rei Degolado nas caatingas do sertão: ao sol da Onça Caetana, segunda parte da trilogia incompleta, tampouco.
Foi essa dificuldade que gerou diversas críticas à microssérie homônima dirigida por Luiz Fernando Carvalho, que migrou da TV Globo para os cinemas. Os problemas da adaptação televisiva seria a condensação de tantos fatos em poucas horas de história. O diretor Antunes Filho esbarra no mesmo nó. Durante os 95 minutos de peça, o espectador que nunca leu o livro tem dificuldade em compreender toda a história contada.
No entanto, o contexto político dos anos 1930 é expresso pelo entra-e-sai de vários personagens - os atores, que somam cerca de 20, parecem multiplicar-se em tantos papéis. Outra solução para a diversidade de cenários da trama foi a utilização do palco nu e de diversos adereços, que mudam conforme a cena. Mas talvez o que mais tenha impressionado o público foi a consistente atuação, com destaque para o protagonista Quaderna (interpretado pelo jovem Lee Thalor), num verdadeiro mergulho no universo de Suassuna.
Espetáculo // La revelación - Riso Nervoso
Por Nair Rabelo
O espanhol Leo Bassi é responsável pela trindade criação-direção-atuação da peça La revelación, alvo de feroz reação de alguns fiéis da Igreja católica espanhola. Ao início, o personagem adverte a platéia sobre as reais intenções: até o fim do espetáculo pretende converter os presentes ao ateísmo. Mas durante os noventa minutos da apresentação, Leo Bassi (além de arrancar gargalhadas do público) insiste que o problema não está na crença em divindades, mas na crueldade inerente ao ser humano. É desta maneira que o espanhol alcança o cerne do bufão, cuja marca é escancarar duras verdades travestidas em piadas. No palco, vislumbra-se um intelectual que se dispõe a fazer a platéia despencar no riso para transmitir a mensagem de que o mundo anda por maus caminhos. Por fim, a gargalhada cede espaço para o riso nervoso, quase reflexivo.
Espetáculo // Frátria amada Brasil - O inesperado das ruas
Por Patrícia Portales
Peça inspirada em situações urbanas observadas na metrópole São Paulo, Frátria amada Brasil reúne alguns dos tipos comuns de cidadãos vistos naquelas ruas e avenidas, cada qual possuidor de uma história de vida, um objetivo e um destino. Estudados e incorporados como elementos de trabalho do Núcleo Bartolomeu de Depoimentos, os personagens, que apresentam diversos pontos de vista sobre a convivência social, trazem à reflexão, a partir de ações individuais e cotidianas vividas, os limites da liberdade em sociedade maculada pela condição política.
O público, colocado no centro da cena, senta-se indefeso em banquinhos escolhidos estrategicamente. O desconforto não é apenas físico, proveniente da sensação incômoda do aperto, no qual há limites curtos entre uns e outros. Vem dos temas incisivos, que vão da exploração infantil até o desemprego. Em alguns momentos, a platéia se perde, fica sem saber direito para que lado olhar, assim como o inesperado pode surpreender a alguém que passeia pelas ruas de uma cidade.
Diretora em cena, Claudia Schapira surge como maestrina de orquestra afinada, que rege elementos como coreografia, música, texto, atores que se auto-representam, e espectadores que reagem. Cada intenção tem o seu lugar. O excesso nas construções visuais do cenário se sustentam alinhadas à proposta executada.
Espetáculo // Frátria amada Brasil - Potência escondida
Por Nair Rabelo
Frátria amada Brasil é resultado dos esforços da companhia paulistana Núcleo Bartolomeu de Depoimentos, cuja característica é unir cultura hip hop e atuação para apresentar um trabalho-manifesto sobre a exclusão social. Nessa perspectiva, o espetáculo, escrito e dirigido por Claudia Schapira, bombardeia o público com recortes de cenas e inserções musicais, que acontecem nos quatro cantos do Pavilhão de Vidro do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB). A escolha da diretora de colocar a platéia dentro do espaço cênico é excitante. Essa disposição transforma a relação espectador-espetáculo numa experiência vivencial. A peça consegue fazer o público sentir-se tão oprimido quanto os diversos Zés Ninguéns – protagonistas das pequenas histórias, que compõem a colcha de retalhos da narrativa. Mas neste tipo de proposta é imperativo que o elenco esteja preparado para exibir uma potência vocal suficiente a fim de que toda a platéia seja capaz de ouvir, ao menos, o que os personagens têm a dizer. Infelizmente, alguns marginalizados permaneceram sem ser ouvido.
Espetáculo // Traços ou quando os alicerces vergam - Música afinada
Por James Fensterseifer
Trilha sonora, iluminação e interpretação em perfeita sintonia conduzem o espectador no espetáculo multifacetado, Traços ou quando os alicerces vergam. O músico Luciano Campos (Lupa), que acompanha a cena ao vivo, impressiona com a conexão precisa e a qualidade dos sons que produz. A trilha cria diálogo direto com a atriz Alice Stefânia, tirando o espetáculo da alcunha de monólogo, fazendo com que o som seja parte integrante da interpretação.
A incisiva iluminação de André Amaro (que também assina a direção) reforça o relacionamento entre os elementos, ressaltando de forma considerável a atuação. A atriz Alice Stefânia está generosa em cena, revelando qualidades, mostrando ser material humano de múltiplos recursos. Por vezes, nos toca com uma profunda dramaticidade de expressões e gestos. Outras, enquanto canta, pela suavidade de sua voz.
A bela e precisa performance somente é maculada por alguns pontos de fragilidade na costura das facetas dramáticas e pela sensação de distanciamento provocada pelo cenário – uma gaiola de ferro.
Espetáculo // La Revelácion - A redenção dos pecados
Por James Fensterseifer
Poderíamos, aqui, apontar uma série de defeitos do espetáculo La revelación, do bufão ítalo-espanhol Leo Bassi. A crueza da encenação (principal pecado), o clima de falso improviso, a participação ingênua dos coadjuvantes, o lugar comum da iluminação e dos cenários, o ritmo irregular, que muitas vezes se revelou em anticlímax, são alguns exemplos.
Porém, La revelación certamente está em um campo superior a essas questões comuns aos espetáculos cênicos. A conotação política universal se sobrepõe ao conceito de encenação. A forte empatia que o bufão Bassi cria com o espectador reforça ainda mais o poder político dos pensamentos radicais expressados no espetáculo. Com opiniões bem embasadas sobre as religiões monoteístas e seus dogmas, Bassi puxa o tapete daqueles que mantinham de forma hipócrita sua fé.
Por fim, quando pensávamos que o espetáculo tinha ultrapassado todos os limites, Bassi volta a surpreender enaltecendo a riqueza daquilo que é imperfeito em detrimento da estagnação encontrada na perfeição – conceito politicamente correto que eleva o artista e acaba por respaldar a totalidade de seu discurso.
Espetáculo // La Revelácion - A pregação do bufão
Por Isabel Fleck
A terceira vinda de Leo Bassi a Brasília parece ter causado mais alvoroço no público da capital do que o de costume. O brasiliense queria ver no palco o que motivou a tentativa de atentando contra o bufão ítalo-espanhol na temporada de La revelación, em Madri no ano passado. E encontrou. Em pouco mais de uma hora e meia, Bassi consegue incomodar católicos, evangélicos, judeus e muçulmanos com piadas sobre seus dogmas. Com um humor inteligente, aponta as inconsistências que permeiam os livros sagrados das religiões monoteístas. Interpreta um engraçadíssimo Bento XVI e surpreende com suas histrionices no palco. Mas a brincadeira assume um tom sério, vez ou outra. É quando o bufão assume sua crença no Iluminismo europeu e seu objetivo fica claro. Portanto, quem não gosta de pregações – qualquer que seja o teor – deve saber que, em La revelación, o palhaço tem uma intenção principal, que vai muito além do riso.
Espetáculo // História de amor (últimos capítulos) - Simples e intrigante
Por James Fensterseifer
Dissimulado em leitura cênica, o espetáculo História de amor (últimos capítulos) do Teatro da Vertigem (SP) no mínimo intriga o espectador. Começa pelo acesso ao teatro, que é feito pelo fundo (acesso dos artistas), somando-se ao posicionamento da platéia (no próprio palco) e culminando pela disposição das cenas (no meio ao público). De cara, a encenação deixa claro que se alimenta do inusitado.
A interpretação, que intercala momentos de leitura com momentos de dramatização, segue conduzindo o público por caminhos propositalmente insólitos, criando certa confusão na compreensão do argumento. Porém, o simples triângulo de relações ganha um sabor especial nesta intrincada trama conduzida por um escritor (Jean-Luc Lagarce) que oscila entre a lembrança e a recriação da história da relação dos personagens.
É um espetáculo despojado nos elementos; simples no enredo e que, mesmo assim, agrada pela qualidade da interpretação, com os três atores em perfeita sintonia, e pela forma rara da montagem.
Espetáculo // Angu de Sangue - Os tipos urbanos em cena
Por Bruno Henrique Peres
Encenada pelos pernambucanos do Coletivo Angu de Teatro, Angu de Sangue apresenta diferentes linhas de pensamento sobre problemas da condição humana acentuados com a modernidade, como preconceito, egoísmo, insegurança e comodismo. Questionamentos levantados ao longo da peça colocam a platéia a refletir sobre a atualidade, em que o discurso retórico da sociedade confirma e mantém suas principais contradições.
São dez momentos de apresentação com variação na intencionalidade do grupo com relação ao público, tanto para provocar o riso quanto para instigar o pensamento sobre a organização das relações sociais e a forma com que estão estruturados os homens. Críticas contundentes e ironias com a função de ambas provocarem o público sobressaem-se ao uso permanente de recursos multimídia para a compreensão e a continuidade do espetáculo.
Uma das inovações que a encenação apresenta é a de mesclar a atuação dos atores com o recurso visual que conduz a narrativa de forma a sintetizar várias das problemáticas abordadas no espetáculo facilitando o entendimento sobre a proximidade real do cotidiano de cada um dos temas.
Espetáculo // A Pedra do Reino - Dualidades enriquecem montagem
Por Sheila Campos
A Pedra do Reino, montagem do CPT de Antunes Filho sobre obra de Ariano Suassuna, talvez tenha sido o mais controvertido espetáculo da oitava edição do Cena Contemporânea. Para se ter uma idéia das divergências radicais de opiniões, basta saber que contrastavam o cansaço demonstrado por parte da platéia na noite de sexta-feira, 31 de agosto, com os gritos que ovacionaram o elenco no domingo, dia 2 de setembro.
A peça conseguiu condensar magistralmente a estilização do teatro moderno com elementos caríssimos à cultura popular. Tal qual Ariano Suassuna, que plasma erudito e popular em toda sua vasta obra, Antunes Filho dispôs sobre o palco nu, entre outras coisas, intérpretes ancorados em irrepreensível pantomima – que remete ao método de mímesis corpórea do grupo de pesquisa LUME, de Campinas.
Reuniu ainda profusão de cores, volumes e texturas nos figurinos, em contraste com a enorme economia de objetos, construindo com eles e até mesmo com atores as diferentes ambientações. Em outro âmbito, conjugou a extensa narrativa da epopéia – a cargo do protagonista Quaderna – com imagens oníricas, estrondosas intervenções do coro, música, e diálogos permeados por uma agilidade impressionante de todo o elenco.
Essa dualidade bem equilibrada talvez seja a tônica do trabalho. Em uma das cenas mais comentadas (a seqüência em que Quaderna confronta o Corregedor), mais que a profusão verbal, a qualidade de cada discurso põe em evidência a contraposição entre essas diferentes formas de pensar: o logos jurídico, que se aproxima do filosófico e científico, exigente de lógica e linearidade; e o discurso lúdico, artístico, do imaginário, do sonho e delírio, esse outro logos jamais aprisionado. Tem-se, aí, uma perfeita tradução imagética do acirrado e secular confronto entre cultura oral e escrita, entre erudito e popular, entre tantas bipolaridades. Em A Pedra do Reino, de Antunes Filho, não poderiam ser diferentes as violentamente defendidas posições antagônicas.
Espetáculo // Angu de sangue - Vermelho de dor
Por Patrícia Portales
Tratar de temas áridos, como o assassinato de crianças, violência (inclusive sexual), a solidão das metrópoles, a indigência, além da própria condição humana em uma encenação, nem sempre é um caminho fácil. Angu de sangue, peça que põe no palco o livro de contos homônimo do escritor pernambucano Marcelino Freire, consegue levar os espectadores à reflexão, mesmo entrecortada por risos que mais demonstram o incômodo diante das breves, mas contundentes, histórias. Entretanto, não há indiferença.
A opção do Coletivo Angu de Sangue, composto por atores pernambucanos, é usar a ironia, a música e certo ar de deboche para colocar o dedo em questões que a maioria insiste em fazer de conta que não existem. Cinco atores se revezam no palco, cujo único cenário é um telão onde são projetadas imagens que completam a cena – seja urubu em um lixão seja uma pilha de sapatos que remete à morte, para ilustrar passagem que se refere à política bélica norte-americana.
Com o uso de poucos objetos de cena (cadeiras, páginas de um jornal), usam o corpo (a voz) para dar vida a personagens marginais, que podem ser encontrados em qualquer núcleo urbano. E expõem o ponto de vista dessas pessoas, que procuram um lugar na selva das cidades. Ao final, o espetáculo produz na platéia um incômodo e deixa a certeza de que a “vida inteligente” não pulsa apenas nos lugares protegidos das classes mais favorecidas.
Espetáculo // Frátria Amada Brasil - Novas rimas para o teatro
Por Bruno Henrique Peres
Conflitos da vida urbana, idas e vindas de estranhos (ou seriam mesmo só estrangeiros?) e o ritmo incessante da vida que não pára. Inteirados dessa vivência, os atores-MCs do Núcleo Bartolomeu de Depoimentos (como eles próprios se definiram) apresentam o Frátria amada Brasil. Com uma linguagem contemporânea também de acordo com variados recursos visuais, o espetáculo materializa a noção de contemporaneidade no teatro. Além de atuar, os integrantes do grupo também iluminam, dançam e cantam. As rimas nos diálogos – algumas inclusive velhas conhecidas do movimento hip hop – são o princípio da sonoridade, uma constante na apresentação.
A narrativa de tipos Zé Ninguém não é distante dos cenários de rua aos quais os cidadãos comuns estão acostumados. A sensação de proximidade aqui ou ali, em alguns momentos da peça, não engana a familiaridade – ao menos televisiva – com as discussões tratadas. O resultado não poderia ser outro senão uma montagem em que o centro do espetáculo – o público – é engolido pelo mundo urbano, semelhante aos mares de Homero.
Espetáculo // Abril - Atrizes não atingem equilíbrio
Por Sheila Campos
O metalingüístico Abril fala de vazios, ausências, perdas, falta. Reclama, ainda, de um tempo que não volta mais. Na nudez desconcertante do palco, o mesmo vazio, a mesma falta, ausência: duas escadas, uma mesa e dois bancos, talhados na rusticidade da madeira. De seu, cada personagem não possui mais que uma mala puída. E reminiscências. A opção pelo experimentalismo está posta na mesa desde o primeiro segundo.
Abril é metateatro. Os elementos da cena estão afinadíssimos: luzes que “soluçam” com as intérpretes, sons que marcam cada delicado passo, ruídos que materializam incomunicabilidade incômoda, quebras, repetições, manipulação de tempo e dos sentidos do espectador. Trechos repetidos do texto são enunciados com as mais diferentes intenções, exercícios de exaustão são trazidos à cena, desafios aos limites físicos das atrizes sucedem-se.
Mas, nesse desnudamento típico do teatro moderno, nesse alardeamento da teatralidade, a interpretação se impõe como um dos aspectos mais importantes. Entretanto, é precisamente neste ponto que reside a fragilidade do espetáculo. A transição do humor ao desespero, da doçura à aspereza, entre tantas outras oscilações extremadas, exige “musculatura emocional” solidamente constituída. Essa capacidade não se mostra equilibrada em cena. Em apenas dois momentos, as atuantes Natássia Garcia e Luciana Mauren alcançam um mesmo patamar; nos demais, separam-se quase irrecuperavelmente. Perfeito seria se esse desencontro dissesse respeito unicamente às personagens. Contudo, essa dificuldade não chega a “condenar” o espetáculo; apenas chama a atenção para um degrau a ser ainda galgado. E as jovens artistas, felizmente, têm tempo para esse ajuste.