O que um festival de teatro pode ocupar?

No princípio era o verbo: ocupar. O que é ocupar? Uma palavra de ação? Uma linha de pensamento? Uma atitude? Uma esperança de alteração das realidades? Um corpo no espaço? Um protesto? Um corpo na cena? Uma estratégia poética? Um coro na cena? Quem ocupa o teatro? O que o teatro ocupa? E como? Como ocupar a cidade com as artes da cena? Como ocupar o tempo com os encontros? Como ocupar os corpos com as alteridades?

Mobilizados pelas dinâmicas contemporâneas da sociedade civil organizada – e empoderada – que culminou em ocupações de espaços públicos onde se materializam campos de disputa simbólica e de narrativas, nos perguntamos: o que um festival de teatro pode ocupar? Esse é o espírito da 17ª edição do Cena Contemporânea – Festival Internacional de Teatro de Brasília. Ocupar espaços, corpos, pensamentos, corações e sensibilidades. Alterar geografias, mudar rotas, gerar fluxos, criar outras paisagens, atritar pontos de vista e acordar temporalidades.

Este ano, nossa programação explode na cidade e investiga as poéticas e as políticas do espaço, ocupando teatros, galpões, casas, museus, galerias, boate, barco e territórios do próprio tecido urbano. Ao longo de duas semanas o público poderá transitar entre 8 produções internacionais vindas da Argentina, Chile, Espanha, França, Polônia, Portugal e Uruguai; 12 criações nacionais (Bahia, Ceará, Goiás, Paraná, Rio de Janeiro, Santa Catarina, São Paulo) e 8 trabalhos do Distrito Federal, além de oficinas e dos debates que integram os Encontros do Cena.

Do ponto de vista temático e daquilo que ocupa os discursos, são criações que exploram conflitos no seio das dinâmicas familiares; desafiam os limites das definições de gênero, as formas e os formatos do amor, a inventividade no trato com narrativas mitológicas, o real e seus recortes, as transcriações da literatura; e tantos outros vetores de tema e discurso que o espectador irá identificar no seu trânsito – e na sua deriva – pelas vias, avenidas e praças do festival.

Em seu último livro o escritor Italo Calvino, ao refletir sobre a literatura naquele fim de século XX, compartilhou: “Minha confiança no futuro da literatura consiste em saber que há coisas que só a literatura com seus meios específicos nos pode dar”. Sem messianismos, acreditamos no futuro do teatro da mesma forma que Calvino na literatura; nas experiências que habitam potencialmente o teatro; nas revoluções próprias que o seu fazer é capaz de articular e que são ainda mais necessárias em tempos que procuram silenciar o que ultrapassa formatos pré-definidos, o que é diverso e singular.

Acreditamos no teatro como essa arena em que subjetividades podem se ver e se sentir mutuamente e, juntas, sonhar outros mundos possíveis. Por isso, convidamos o espectador a vivenciar diferenciadas relações com a cena, com a cidade e com o outro, e agradecemos os parceiros que comungam desta crença: Petrobras, Secretaria de Cultura, Governo de Brasília, Oi, Iberescena, Empresa Brasil de Comunicação, Correio Braziliense, Caixa e Sesc, empresas e instituições que tornam possível a continuidade deste sonho-ocupação que começou há vinte e um anos.

Entre 23 de agosto e 4 de setembro, Brasília será ocupada pelo teatro e o teatro vai ocupar Brasília. A cena ocupa a cidade e convidamos você a ocupar a cena!